Wednesday, October 06, 2010
A solidão é uma matéria
gasta na poesia.
Escrevê-la sob a sensação
inexorável de infertilidade
literária enrola-me a língua
em fogos congelados que me
entristecem ao ponto de olhar
em volta e perguntar à primeira
pessoa que passa se não
se importa de acabar com ela.
Posted at 10:54 am by mortir
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Sunday, May 30, 2010
Unknown characters of dead novels
Não me sinto capaz
de utilizar a palavra não;
provavelmente tê-la-ei
esquecido entre
os dedos desertos de tempo.
Sou infeliz, e talvez a melhor
pessoa do mundo.
Posted at 02:11 am by mortir
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Wednesday, February 10, 2010
retórica para amanhã à noite
o homem está cansado de viver e segura ainda um jornal -
está cansado de viver mas não se apercebe, só nós,
estrangeiros dele, o sabemos, nos encontrões
súbitos da poesia, reconhecer. vai subindo a rua segurando
um jornal, chorando papéis, fotografias, todo um corpo
guardado sob um casaco, uma camisa, umas calças.
as putas acenam-lhe e ele ignora-as, talvez noutra tarde,
noutra noite. espera-o um jarro de flores com a água
esverdeada, não se lembra de alguma vez as ter trocado,
é possível que tenham morrido. o homem pergunta-se
se as flores estão cansadas de viver mas, coitadas, nem
se apercebam, só ele, estrangeiro delas, o note, numa
angústia; bem vistas as coisas, é possível que as flores já
estivessem mortas à partida, sem as suas raízes, apenas
caule e pétalas e estames inúteis que nunca serão
usados na polinização de outro universo. as putas
acenam, só pétalas e estames, a rua afunila-se e
fecha-se, o homem continua a sua história anónima,
com muitas dores de dentes e de cabeça, para as quais
toma medicamentos genéricos receitados pelo médico
de família.
Posted at 04:58 pm by groze
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Friday, January 29, 2010
Às vezes oiço-vos a todos
enunciar com tamanha
veemência a lei de Lavoisier
que a amo ao ponto de
refutar o amor.
Estou doente
e
científico.
Posted at 10:05 pm by mortir
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Thursday, November 26, 2009
podemos beber as nossas vidas inteiras e no
fim observarmo-nos mutuamente, um no
fundo e outro na cabeça de uma garrafa,
podemos ser uma casa ou um abrigo qualquer,
um alpendre onde os animais se possam guardar,
onde as aves possam morrer. podemos segurar-nos
um ao outro antes que os nossos corpos envelheçam,
e eu posso-te beijar os ombros e assegurar-te
as minhas mãos, podemos comer toda esta fruta;
as maçãs, para ti, as laranjas, para mim, e posso
olhar-te à distância, os lábios e os dentes e a língua
trincando as maçãs, lendo um livro qualquer com
o chapéu e com o cabelo e com as unhas e as mãos,
à distância apetece-me adormecer no teu cheiro,
podemos presumir que o mundo está morto
e que a única coisa que resta é o teu corpo;
entretanto um gato atravessa de uma margem para a outra
num toro de madeira flutuante.
Posted at 02:08 am by groze
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Wednesday, April 29, 2009
Decreta-se em aflição o estado de
emergência humana pelas ruas e paredes
sujas de uma cidade
internamente destituída de sabor, aroma,
sexo, sangue, lábios, epiderme ou sequer um
texto perdido que valha a pena encontrar e engolir pelos
olhos, réstias animais de uma civilização inteligente.
Hoje penso em morrer
oprimido pelas
janelas de velcro do
eterno.
Posted at 08:29 pm by mortir
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Tuesday, April 21, 2009
O amor parte-se ao
meio.
Sei que és a metade que me falta,
mas talvez corte a minha metade
ao meio, e finja que me consigo amar
a mim mesmo.
Posted at 06:36 pm by mortir
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Sunday, April 12, 2009
Os mortos abandonam
crónicas escritas a vermelho
nas entradas laterais do mais
insólito suspiro da mente
(humana?). No fim chamam-nos
todos humanos porque não
fizeram questão de nos abrir
a cabeça e os dentes e as unhas
sujas de sonhos, não se lembraram de
pesquisar o cosmos atrás da retina
nem trouxeram do fim do mundo
o princípio das palavras.
A surdez conquistou-lhes
uma voz perdida e esperam
que o mundo acabe na esperança
que comece o sonho.
Somos todos uma espera denegrida
de nada, um segundo nome da
inteligência: inexistência.
Posted at 11:14 pm by mortir
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Monday, February 16, 2009
se me deres a mão
se me olhares hoje neste fim de tarde
se não saires agora
se me sorrires
se me deixares continuar esta conversa
em torno de um bule e uma chávena
de chá e olhar-te
olhar-te, esse maravilhoso
exercício
se te puder pegar na mão
para exemplificar estas coisas
para te exemplificar uma estrela
um lago
ou uma paixão
então tomarei a liberdade de o fazer
e de te dizer baixinho
"amo-te"
mesmo que isso só corresponda à relativa
verdade
instantânea destes segundos. e
amar-te-ei, os meus lábios contra
os teus dentes numa demanda
de sangue e linfa,
a tua voz nos meus ouvidos
no meu crânio como
se eu fosse um pássaro
com coisas magnéticas
a indicar no inverno:
volta para onde é primavera.
Posted at 04:17 pm by groze
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Monday, February 09, 2009
Quando os olhos têm vírgulas
Quando, hoje, entre
nós há uma sombra
e os ombros, por
baixo das mãos,
se encontram límpidos
como a ave que morta
se corta nas farpas,
confundo-me na mescla
de cores ovíparas que
guardas nos olhos
como lágrimas que,
ainda ontem, permaneciam
inertes no fundo da garganta
do animal de pedra que
se diz por aí, terá morrido
de overdose.
Onde me perdi, para me terem encontrado tão depressa?
Posted at 10:47 pm by mortir
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