Thursday, November 06, 2008
As luzes ofuscam, apagam
a noite.
Aleijam, matinais, nos
sonhos que acabam
em ferrugem artificial
de lâmpadas
amarelecidas de sangue.
Acendem-se, incendeiam-se
sóis que te mostram no
centro do palco, dançando
em passos curtos,
beijando as nuvens, escrevendo
sinceridade no céu.
Continuas como se nada
te observasse.
Como se apenas eu, ao fundo
da sala, disposto em forma
de relógio, de tempo, te observasse
o movimento dos olhos, dos sonhos.
Posted at 12:20 am by mortir
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Sunday, September 28, 2008
Tenho um quartzo rosa, polido,
nos murmúrios de ser o que fui.
Faz-me mal guardá-lo tão
perto porque lhe toco, muito,
e me doem as forças e os
empurrões desanexados de existência
que, depois de vil, se torna mórbida.
Leio poemas e engulo
ametistas sem sequer
proferir palavras,
sem violar as regras
do silêncio que, tantas
vezes, me gritam afónicas
que volte, morto, ao cemitério
onde me nasceram
válvulas na medula,
para que o físico
se pudesse encontrar
com o metafísico.
Mas nunca encontrou...E ainda bem.
Posted at 02:35 am by mortir
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Saturday, September 27, 2008
estas coisas que confundimos no nevoeiro
temo que tenha chegado o fim destas coisas: das palavras, das
reticências que pusémos, afinal, quantas delas resultaram, meu
madeiras que queimámos nesses incêndios em que consumimos
amor, quantos olhos, ah!, quantos olhos cegos de ti, de mim, não
as casas, as cartas, os animais domésticos. fartámo-nos dos animais
quisémos outra direcção, outro horizonte, só encenámos isso, foi
domésticos e de criação. para que servem? ainda servimos uns
uma peça, um teatro. fomos hipócritas de impressões relativamente
almoços, umas refeições que arrefeceram. gosto muito dessas coisas que
matinais.
arrefecem.
Posted at 05:57 pm by
groze
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Thursday, January 10, 2008
as palavras que o vento não leva sobram demasiado no fundo da boca e doem
há dias em que as aves são agudas
e lembram gotas, aquários inteiros
de memórias. não me lembro dos nomes
de ninguém. não me lembro
não me lembro
não me lembro. há dias assim, de
aquários inteiros, de impressões
violáceas, de gavetas. de memórias,
querida, memórias de quando nos
queríamos bem, memórias dessa
altura em que tudo poderia ter dado
quase certo. não entendemos bem
porque nos afastámos e hoje quando nos
lemos já não dizemos nada. pelo
menos nada
um
ao
outro.
há dias em que as aves são agudas.
Posted at 04:18 pm by
groze
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Friday, November 16, 2007
permito meu corpo repousar aqui, perto do teu...
ajusto a tua face à minha, aconchego-me
o calor da tua pele convida meus sentidos a adormecerem em teu cheiro
os teus lábios convidam-me a beijar-te silenciosamente
minhas mãos trémulas acariciam teu cabelo de fogo, ondudante ao vento
chove e quanto mais chove mais te quero junto de mim
tomo teu corpo em meus braços e permito a chuva acariciar nossa pele gentilmente
quero que me protejas, que me vistas com o teu corpo
o vento sopra, as nuvens esfumam-se perante a tormenta... meus lábios aproximam-se de tua pele como em uníssono com a tempestade que se avizinha
adormecemos. sonhamos. nao sabendo até que ponto é realidade o sonho ou sonho a vida.
nossas almas quebradas por um fulgor, encerradas numa gota de chuva que se perde no negrume do céu... E em baixo, dois corpos que se amam e esquentam num dia de trovoada
que a trovoda deixe de soar... que se oiçam os beijos.
beijos húmidos como nossos corpos acariciados pela chuva que nos cobre, eis que surge um silêncio que nos arrebata... Doce melodia de lábios que se fascinam num longo e intenso beijo de amor.
talvez o amor seja exactamente essa incessante busca pelo sentir
e o encontremos nesse paradigma do não saber
dormentes numa gota de chuva qualquer
Posted at 12:18 am by su
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Wednesday, November 14, 2007
São tenues os teus dedos
como o silêncio.
É silêncio que ouço
inspiro
corto
em vários pedaços.
A minha razão e a tua são uma.
Razão plácida que cobre de espinhos
os olhos
teus e meus.
Há tanto p'ra se falar
p'ra se sentir.
Tanto que não interessa.
E infiltram-se brumas no pensamento
-meu-
que me libertam odores.
O odor fica perto da memória,
sabe a memória.
Memorizo-te.
Desenho-te.
Contorno-te.
Talvez o que interessa não seja mais que isto.
E pode ser que te beije
e não saiba a mim.
Está nevoeiro e eu gosto...
imenso...
de ti...
Posted at 12:23 am by su
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Monday, September 17, 2007
sinto falta de um corpo que se aninhe a meu lado
durante a noite, de um corpo quente, que cheire
a coisas que possa amar junto a mim, a corpo nu,
mas a coisas cujos cheiros não existem concretos:
as estrelas e os abraços e muitas flores e animais
juntos, e frutos, sobretudo, muitos frutos. sinto falta
de uma boca aquática que se cole na minha durante
o tempo que durar a vontade, que construa um abrigo
de braços e pernas comigo, um local onde possamos
existir os dois. sinto falta de um abraço todo à minha volta
e de palavras nos meus ouvidos, e de um ombro e de
um regaço que não sejam só de amiga, de mãe,
mas de amante, de luz que ilumina os becos da alma
e me vê os segredos e as memórias. sinto falta de uma
coisa bonita numa pessoa bonita, de poder dizer que
isto que sinto é amor, e não uma palavra que parece
amor mas é outra coisa: é uma casca de árvore velha.
Posted at 12:27 am by
groze
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Saturday, August 25, 2007
Posso dizer-te, hoje, assim: "és bonita",
por entre as vozes que chegam dos outros
quartos, e olhar o teu rosto, os teus olhos,
os teus lábios profundos. Na verdade, as outras
vozes são também a minha voz e parecem
dizer "és bonita". O mundo inteiro está parado
e aguarda que o teu sorriso seja uma resposta.
Embrião inexistente que reconforta uma alma
cansada.
Posted at 05:51 pm by
groze
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Thursday, August 02, 2007
Os lábios acendem-se ao longe, são
aves; na cabeça, sem planos nem
projectos, uma árvore amadurece e dá
lábios com sabor. Aproximo-me e colho
uma forma sanguínea, bruta, de dentro da
boca iluminada, e o que se me revela
é o que o meu cérebro e o sistema límbico
reconhecem como sendo uma espécie
de amor.
Posted at 02:03 pm by
groze
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Monday, June 18, 2007
É de noite e caem estrelas sobre os teus olhos
É de noite
E eu reinvento um novo recomeço
feito de plumas e ondas do mar
Pode chover, tanto faz,
e podes chorar
Porque a noite traz estrelas no seu regaço
e eu coloco-me a mim numa gaveta fechada
a chaves
Posted at 07:56 pm by su
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