Monday, May 21, 2012
é mesmo este o teu nome?

se um ouriço fechado matar a minha mão
aberta, se uma graínha de uva ferir o céu
da minha boca em labor de alimentação,
se uma lasca de madeira velha magoar os
meus olhos insuficientes, querida, prometo
ferir-te as costas e morder-te os cotovelos
até os lençóis  te arderem nas costelas e
chorares com falta de ar. se os gatos à
noite arranharem as tuas costas, se os
morangos souberem a amoníaco e a
enxofre, é só sinal de que o tempo é este,
de que o espaço é este. e o que resta é
ver as moscas pentear os pêlos do corpo
com as patas.

Posted at 03:05 pm by pedro tiago
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Wednesday, May 02, 2012
música & livros & tabaco & amor

eis as pessoas que amo:
estão caladas,
doentes, sem
conseguir abrir os
olhos, com dificuldade
em respirar, em
falar, a preferir
que lhes tivessem
cosido os lábios
com fio de pesca.
com as mãos
fehadas à chave.

Posted at 03:16 pm by pedro tiago
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Monday, April 16, 2012
caterpillar

uma bola
de pus
incomoda
dentro
da boca
mas ainda
mais se
se tratar
de um terçolho
e estiver
nas pálpebras.

Posted at 05:27 pm by pedro tiago
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Wednesday, October 06, 2010
Sunken garden

A solidão é uma matéria
gasta na poesia.
Escrevê-la sob a sensação
inexorável de infertilidade
literária enrola-me a língua
em fogos congelados que me
entristecem ao ponto de olhar
em volta e perguntar à primeira
pessoa que passa se não
se importa de acabar com ela.

Posted at 10:54 am by mortir
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Sunday, May 30, 2010
Unknown characters of dead novels

Não me sinto capaz
de utilizar a palavra não;
provavelmente tê-la-ei
esquecido entre
os dedos desertos de tempo.

Sou infeliz, e talvez a melhor
pessoa do mundo. 

Posted at 02:11 am by mortir
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Wednesday, February 10, 2010
retórica para amanhã à noite

o homem está cansado de viver e segura ainda um jornal -
está cansado de viver mas não se apercebe, só nós,
estrangeiros dele, o sabemos, nos encontrões
súbitos da poesia, reconhecer. vai subindo a rua segurando
um jornal, chorando papéis, fotografias, todo um corpo
guardado sob um casaco, uma camisa, umas calças.
as putas acenam-lhe e ele ignora-as, talvez noutra tarde,
noutra noite. espera-o um jarro de flores com a água
esverdeada, não se lembra de alguma vez as ter trocado,
é possível que tenham morrido. o homem pergunta-se
se as flores estão cansadas de viver mas, coitadas, nem
se apercebam, só ele, estrangeiro delas, o note, numa
angústia; bem vistas as coisas, é possível que as flores já
estivessem mortas à partida, sem as suas raízes, apenas
caule e pétalas e estames inúteis que nunca serão
usados na polinização de outro universo. as putas
acenam, só pétalas e estames, a rua afunila-se e
fecha-se, o homem continua a sua história anónima,
com muitas dores de dentes e de cabeça, para as quais
toma medicamentos genéricos receitados pelo médico
de família.

Posted at 04:58 pm by pedro tiago
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Friday, January 29, 2010
Cientificamente

Às vezes oiço-vos a todos
enunciar com tamanha
veemência a lei de Lavoisier
que a amo ao ponto de
refutar o amor.

Estou doente
e
científico.



 

Posted at 10:05 pm by mortir
cicatriz (1)  

Thursday, November 26, 2009
eva

podemos beber as nossas vidas inteiras e no
fim observarmo-nos mutuamente, um no
fundo e outro na cabeça de uma garrafa,
podemos ser uma casa ou um abrigo qualquer,
um alpendre onde os animais se possam guardar,
onde as aves possam morrer. podemos segurar-nos
um ao outro antes que os nossos corpos envelheçam,
e eu posso-te beijar os ombros e assegurar-te
as minhas mãos, podemos comer toda esta fruta;
as maçãs, para ti, as laranjas, para mim, e posso
olhar-te à distância, os lábios e os dentes e a língua
trincando as maçãs, lendo um livro qualquer com
o chapéu e com o cabelo e com as unhas e as mãos,
à distância apetece-me adormecer no teu cheiro,
podemos presumir que o mundo está morto
e que a única coisa que resta é o teu corpo;

entretanto um gato atravessa de uma margem para a outra
num toro de madeira flutuante.

Posted at 02:08 am by pedro tiago
cicatrizes (2)  

Wednesday, April 29, 2009
Uma marca de silicone

Decreta-se em aflição o estado de
emergência humana pelas ruas e paredes
sujas de uma cidade
internamente destituída de sabor, aroma,
sexo, sangue, lábios, epiderme ou sequer um
texto perdido que valha a pena encontrar e engolir pelos
olhos, réstias animais de uma civilização inteligente.

Hoje penso em morrer
oprimido pelas
janelas de velcro do
eterno.

Posted at 08:29 pm by mortir
cicatriz (1)  

Tuesday, April 21, 2009
Evolton

O amor parte-se ao
meio.

Sei que és a metade que me falta,
mas talvez corte a minha metade
ao meio, e finja que me consigo amar
a mim mesmo.


Posted at 06:36 pm by mortir
cicatriz (1)  

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"Poesia é uma coisa que não é a mesma coisa mas é igual."

Beatriz Bruno Antunes, 4 anos


   

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