Entry: retórica para amanhã à noite Wednesday, February 10, 2010



o homem está cansado de viver e segura ainda um jornal -
está cansado de viver mas não se apercebe, só nós,
estrangeiros dele, o sabemos, nos encontrões
súbitos da poesia, reconhecer. vai subindo a rua segurando
um jornal, chorando papéis, fotografias, todo um corpo
guardado sob um casaco, uma camisa, umas calças.
as putas acenam-lhe e ele ignora-as, talvez noutra tarde,
noutra noite. espera-o um jarro de flores com a água
esverdeada, não se lembra de alguma vez as ter trocado,
é possível que tenham morrido. o homem pergunta-se
se as flores estão cansadas de viver mas, coitadas, nem
se apercebam, só ele, estrangeiro delas, o note, numa
angústia; bem vistas as coisas, é possível que as flores já
estivessem mortas à partida, sem as suas raízes, apenas
caule e pétalas e estames inúteis que nunca serão
usados na polinização de outro universo. as putas
acenam, só pétalas e estames, a rua afunila-se e
fecha-se, o homem continua a sua história anónima,
com muitas dores de dentes e de cabeça, para as quais
toma medicamentos genéricos receitados pelo médico
de família.

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